Tudo nasce do modelo de produção: grandes extensões de terra, monocultura, mecanização do trabalho. Todo mundo sabe, agrotóxicos só existem e são necessários para corrigir os problemas que as monoculturas têm.
Defensivos agrícolas intoxicam os trabalhadores, o lençol freático, os rios e os alimentos, trazendo a longo prazo diversas doenças. Os efeitos dessa exposição prolongada pode não somente levar ao câncer mas também, pode causar teratogenia (má formação fetal), alguns compostos podem ser interferentes endócrinos (alterações hormonais), causam distúrbios cognitivos em crianças e etc.
A disseminação de agrotóxicos e transgênicos, ao contrário da propaganda de "alta produtividade" contribuem para o empobrecimento dos agricultores, mecanização exacerbada, desemprego no campo, destruição de biomas e desertificação.
Bebê com má formação causada por pesticidas
Na reportagem "Agrotóxico é a nova faceta da violência do campo" (http://www.brasildefato.com.br/content/agrotóxico-é-nova-faceta-da-violência-no-campo) a professora doutora do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP) Larissa Mies Bombardi realizou uma pesquisa sobre os casos de intoxicações e mortes por agrotóxicos no Brasil, com dados de 1999 a 2009.
Em um levantamento constatou que foram notificadas 25.350 tentativas de suicídio através do uso de agrotóxicos no período, e 1876 mortes foram registradas. “Uma grande parte dessas mortes é suicídio, o que é mais assustador ainda. A escolha desse caminho é significativa, o trabalhador usa para causar sua própria morte o instrumento que o subordina, que o deixa doente, que pode levar ao endividamento”.
Larissa considera a situação dos agrotóxicos mais uma faceta da violência no campo, que afeta a todos: os pequenos produtores, os trabalhadores expostos diretamente ao veneno, os consumidores de alimentos. Ela explica que há alternativas, mas que elas passam necessariamente por uma mudança de modelo.
Veja alguns trechos da entrevista em a professora fala à Brasil de Fato:
Brasil de Fato - O Brasil se tornou o maior consumidor de agrotóxicos em 2009. De onde vêm esses produtos?
Larissa Mies Bombardi - São seis grandes empresas estrangeiras – Monsanto, Syngenta/Astra Zeneca/Novartis, Bayer, Dupont, Basf e Dow – controlando mais de 70% do mercado de agrotóxicos no Brasil. Em poucos anos, elas tomaram pra si 127 outras empresas, isso é chocante. E essas empresas são de três países, Estados Unidos, Suíça e Alemanha. Segundo o Anuário do Agronegócio de 2010, as empresas que vendem veneno tiveram uma receita líquida de R$ 15 bilhões.
Brasil de Fato - Com esse processo, aumenta ainda mais a transferência de renda do pequeno produtor para as empresas. Como é essa questão da subordinação da renda da terra?
Larissa Mies Bombardi - Esse é um dos grandes dramas da agricultura camponesa hoje. Quando o produtor depende de um adubo químico, de um inseticida, de um herbicida, enfim, uma parte da renda que ficaria no bolso dele vai para o capital industrial. Muitas vezes o preço desses produtos é pautado pelo dólar. Há momentos em que o dólar aumenta, o pesticida aumenta. Mas o que acontece: todo produto agrícola, com exceção da cana, é determinado pela oferta e demanda. Então você não sabe quanto vai valer seu produto até a hora da venda, e ainda assim você recebe 30, 60 dias depois. Às vezes você pagou um valor muito alto pelo insumo e a produção não compensou. Então eles acabam recorrendo ao mercado financeiro para conseguir saldar dívidas. Acabam entrando num círculo vicioso por conta da dependência desses insumos. Aí a renda deles fica subordinada ao capital industrial, às indústrias de agroquímicos, e ao capital financeiro, muitas vezes juntos. Às vezes os bancos, inclusive o Banco do Brasil, emprestam o dinheiro, faz o sistema de crédito rural direto com as empresas que comercializam esses produtos. Então uma parte da renda, ao invés de ficar no controle do produtor – como fica quando ele investe em outros processos de adubação – é transferida para o capital.
Brasil de Fato - 80% dos agrotóxicos da América Latina são consumidos no Brasil. Por que isso ocorre? A produção agrícola justificaria esse uso intensivo?
Larissa Mies Bombardi - Na verdade, 84% dos agrotóxicos da América Latina são consumidos no Brasil. E a gente não tem controle da quantidade, do tipo de produtos que são usados. O Brasil é muito permissivo, tem produtos que são proibidos na União Europeia e nos Estados Unidos há 20 anos e aqui eles podem ser usados. Tem um caso relatado por Wanderley Pignati, da UFMT, em Lucas do Rio Verde, de uma chuva de agrotóxicos que contaminou a população e os poços artesianos, e a prefeitura comunga com os grandes fazendeiros. O caso foi escondido.
Brasil de Fato - É possível produzir o mesmo tanto sem utilizar agrotóxicos?
Larissa Mies Bombardi - Não nos moldes em que está organizada a produção hoje. Quando se tem uma monocultura, uma plantação de uma espécie só, fica muito fácil para os insetos virem e consumirem. Qual a diferença de uma monocultura e de uma agricultura que chamamos agroecológica? A agroecológica “imita” a natureza, há uma infinidade de espécies juntas, então não há um foco direto para o inseto se alimentar. Na monocultura, isso é impossível. Não dá pra pensar a monocultura sem o pacote agroquímico, essa é a verdade. Seria possível produzir isso tudo, mas não nesses moldes. Não dá pra ter grandes propriedades, não dá pra ser mecanizado, enfim, é um pacote que anda junto. Não dá pra produzir em larga escala nesses moldes sem agrotóxicos.
Brasil de Fato - Por que os defensores do uso de agrotóxicos defendem que é ele que garante a produção de comida no mundo? O argumento deles é que é preciso produzir mais para alimentar as pessoas, para acabar com a fome, não é?
Larissa Mies Bombardi - Esse é um argumento mentiroso. O problema de acesso ao alimento não é questão de produção, de quantidade de alimento, é questão de acesso à renda. A gente pode pensar na quantidade de desperdício, na quantidade de pessoas que têm problema de super alimentação. Seria possível produzir para todos, claro. Há propriedades agroecológicas em que a produtividade – medida pela produção por área – é maior que nos moldes tradicionais. Mas o problema é que nas propriedades agroecológicas a demanda de trabalho é muito intensa. E o capitalismo consegue avançar no campo quando o trabalho é mínimo, por isso mecanizam, para ter lucro.
Brasil de Fato - É possível saber como o consumo indireto de agrotóxicos, pela alimentação, pode ter impactos na saúde?
Larissa Mies Bombardi - O Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), ligado à Anvisa e ao Ministério da Saúde, identifica os tipos de agrotóxicos presentes nos alimentos e os efeitos disso. Mas por exemplo, o agrotóxico que na Monsanto eles chamam de “Roundup”, é um herdeiro do agente laranja, que é um desfolhante químico que foi usado na guerra do Vietnã. Ele é absorvido pela pele e se instala na gordura. Ele passa inclusive pela placenta. Tem gente até hoje que nasce, no Vietnã, com má formação por causa disso. Mas precisamos de mais pesquisas para saber como a gente se contamina ingerindo esses alimentos intoxicados.
Brasil de Fato - A senadora Kátia Abreu disse, em cena registrada no filme O veneno está na mesa, de Sílvio Tendler, que os pobres devem comer com agrotóxico e quem tem opção pode comer orgânico. Como contornar essa lógica?
Larissa Mies Bombardi - Por que o orgânico é mais caro ainda hoje? Não é porque é mais caro produzir orgânico, nem sempre sua produção é mais cara. O que acontece é que ele é mais raro. Tem um conceito que vem de Marx que é a renda de monopólio. Ele utiliza o exemplo do vinho do Porto: por que se paga caro por ele? Porque Porto só existe em Portugal, só lá produz vinho do Porto. Quando o produto é raro, o preço dele é elevado. Quando surgiram as verduras hidropônicas o preço era alto, havia pouco, depois foi sendo mais produzida e o preço baixou. Os orgânicos ainda são produzidos em menor quantidade do que a agricultura convencional, por isso os produtos são mais caros. Não necessariamente porque demanda mais investimentos para produzir. Mas se chegamos num nível ótimo de segurança alimentar, isso não vai existir.
Kátia Regina de Abreu (Goiânia, 2 de fevereiro de 1962) é uma empresária pecuarista e política brasileira. Atualmente cumpre mandato de senadora pelo estado do Tocantins. Sua atuação em defesa dos agropecuaristas tem gerado animosidade entre alguns ecologistas e o Ministério do Meio Ambiente. Foi rotulada pelos ativistas ambientalistas como "Miss Desmatamento".
Recebe críticas por atuar de forma contrária à política atual de reforma agrária no Brasil. Também é criticada por supostamente manter dois terrenos improdutivos que concentram 2500 hectares de terra.
Kátia também defende a política de uso de sementes alteradas em laboratório patenteadas por grandes corporações de biotecnologia como a Monsanto e o uso de agrotóxicos na agricultura.
A pesquisadora russa Irina Ermakova publicou em 8 de janeiro os resultados de uma experiência com produtos geneticamente modificados no jornal inglês The Independent.
Ela alimentou por duas semanas um grupo de ratas com farinha de soja transgênica resistente a um herbicida da Monsanto. A pesquisa concluiu que 55,6% dos filhotes do grupo alimentado com soja modificada morreram nas primeiras três semanas de vida. Nos outros grupos foram menos mortes: 9% dos filhotes do grupo alimentado com a versão normal do produto e 6,8% do grupo que não recebeu soja.
Alguns meses antes de publicar a pesquisa, a russa também emitiu ao público um informe no qual demonstrava que ratos alimentados com sementes transgênicas da Monsanto sofreram mudanças em seus órgãos internos, indicando possíveis danos ao sistema imunológico.
Entretanto, apesar da crescente evidência de que os transgênicos causam impactos à saúde, a Monsanto anuncia lucros extraordinários.
Segundo João Diniz, do movimento social português Confederação Nacional da Agricultura, a população não tem garantia de que a produção de transgênicos não irá causar catástrofes alimentares pelo mundo. “Há muitos interesses em jogo. As multinacionais agroalimentares ligadas ao agronegócio têm grande poder político e econômico sobre os governos em praticamente todos os países. Elas mandam, dominam, impõem sua vontade em uma espécie de ditadura biogenética através das produções transgênicas”
A organização não-governamental estadunidense Friends of the Earth (Amigos da Terra, em português) divulgou o resultado de uma pesquisa que durante 10 anos analisou plantas transgênicas. O relatório aponta que, apesar das promessas da multinacional Monsanto, os produtos geneticamente modificados não apresentam benefícios para o meio ambiente ou para os consumidores, da mesma forma que não contribuem para combater a fome ou a pobreza no mundo.
O argumento de que as sementes transgênicas produzem mais é uma falácia, pois tem se observado que a safra transgênica perde 30% mais que tradicional na seca
O Mato Grosso do Sul, que tem cerca de 1,9 milhão de hectares cultivados com plantio transgênico, sofreu perdas de 70% na produção por causa da seca. Os municípios mais atingidos foram Caarapó, Amambaí, Aral Moreira, Dourados e Laguna Carapã. Nos estados onde a safra foi tradicional, sem uso de transgênicos, as perdas não ultrapassaram 40% da produção.
Assista ao Vídeo do documentário de Silvio Tendler " O Veneno está na mesa" :








Natanry, como você diz no início do seu blog,o conceito de verdade desafia a humanidade faz muito tempo. Nesta questão dos agrotóxicos há muitas meias verdades que dificultam a criação de um quadro de informações que nos permita conclusões "verdadeiras". Vou enumerar algumas destas meias verdades, só para dar uma ideia de como este problema é tratado pelas várias óticas (ambientalista, política, regulatória, do agronegócio, etc).
ResponderExcluir1) não é verdade que os agrotóxicos são exclusivos do agronegócio. OS alimentos que mais comumente chegam fortemente contaminados nas nossas mesas são os hortifruti, derivados majoritariamente dos pequenos produtores e da agricultura familiar. Porque eles usam agrotóxicos? Porque de outra forma a produção cai muito pelo ataque de fungos, insetos, vermes e outras pragas. Pode-se fazer uma agricultura sem isso? Sim, os orgânicos não usam isso, mas o preço final para o consumidor é muito mais elevado, é só ir ao supermercado ou ao mercadinho da esquina.
2) as pessoas usam agrotóxicos em tentativas de suicídio? Sim, 30% das intoxicações notificadas são tentativas de suicídio, mas quem disse que são agricultores que tentam se matar? De jeito nenhum! Estes produtos são adquiridos pelos suicidas ou apanhados por eles nos depósitos de outras pessoas, nada tem a ver com a ocupação deles no campo. Esta é uma gravíssima distorção da realidade.
3) os agrotóxicos chegam a nossa mesa e podem nos matar? Sim e não: chegam a nossa mesa, mas em geral em quantidades muito pequenas e de forma muito irregular. Os campeões de contaminação nem sempre estão contaminados, os princípios ativos não são sempre os mesmos, muitos alimentos, ao serem lavados, ficam livres disso. Resultado: só há registro de 30 casos de intoxicação por ano, em média, devido ao consumo de alimentos contaminados com agrotóxicos. Enquanto isso, 3 a 4 vezes mais pessoas se intoxicam com o próprio alimento, por várias razões (estado de conservação, intolerância, doenças associadas, forma inadequada de consumo, etc.). 30 casos de intoxicação (não de morte, de
morte, de forma alguma) não me parecem muitos. Todos os anos centenas de milhares de crianças morrem de fome, sem comer orgânicos, transgênicos ou agrotóxicos...
Sugiro a leitura do blog genpeace.blogspot.com, lá tem um post exatamente sobre este assunto.
Cordialmente
Paulo Andrade
Antes de mais nada, obrigada por postar sua opinião, embora seus argumentos não demovam em nada minha visão do que é a indústria do agrotóxico no mundo.
ExcluirSei que pequenos produtores utilizam defensivos pra aumentar a produção aniquilando as pragas e fungos, mas sei também que existem maneiras naturais de se diminuir a população de insetos e fungos e que, apesar de haverem poucos casos de intoxicação aguda, existe uma contaminação lenta e cruel, que contamina o solo, a água dos rios e seguindo o ciclo, chega ao leite materno.
Você viu a figura daquele bebê sem bracinhos e pernas??? Nasceu assim porque sua mãe consumiu alimentos com essa contaminaçãozinha residual, ou bebeu água contaminada com um resquício insignificante de defensivos agrícolas.
O que sei, é que venenos não são naturais, e eles não somem, não evaporam, eles ficam no solo, se infiltram nele, se acumulam no organismo, interferem nos hormônios.
Quando se usam agrotóxicos o vegetal plantado fica sem a defesa natural da diversidade biológica exigindo grande quantidade de agrotóxicos para se desenvolver. Por outro lado as pragas, lentamente vão adquirindo resistência ao veneno , exigindo assim venenos cada vez mais "potentes". É uma lógica criminosa. Além da pulverização aérea de agrotóxicos, existem os diabólicos agrotóxicos sistêmicos que são injetados nas sementes dos vegetais. Nestes casos não adianta lavar um legume ou verdura para retirar o venemo da supefície do vegetal."
Diga o senso comum, há 20 anos atrás câncer era uma coisa rara, hoje em dia, todo mundo conhece pelo menos 3 pessoas próximas com a doença, e isto, me arrisco a afirmar, deve-se ao novo estilo de vida, artificial, de produção em massa, com químicas e mais químicas, no campo, na criação dos animais e na industrialização dos alimentos.